4.5.15

Sacavém, Cidade a sério ?!...



Nado e criado em Sacavém, foi na Vila de então, Cidade agora, que vivi com toda a intensidade a Revolução de 25 de Abril de 1974, o seu desenvolvimento e retrocesso. Tenho viva a memória da imensa esperança, da pujante vontade, de uma maioria de sacavenenses, pugnando por uma vida melhor para todos e pelo progresso da sua terra.

E Abril, trouxe uma das mais sólidas e vibrantes alterações no país. O poder local democrático, que viabilizou um vasto conjunto de transformações de nível local, que se repercutiram muito positiva e globalmente no país. Em Sacavém, também assim foi. As transformações ensejadas e concretizadas no território, na vida colectiva e nas condições de vida dos sacavenenses, abriram imensas expectativas e oportunidades.

Entretanto, muito se esboroou, muito se desperdiçou, muito se abandonou, mercê das políticas governamentais e inécia autárquica. Hoje, a minha Cidade, é uma terra deprimida, a passar por dificuldades inimagináveis há 40 anos atrás e muito depois disso.

Os fugazes lampejos que subsistem aqui ou ali, de pessoas e instituições, ora resistindo, ora contrariando, o actual caminho de decadência, são forças sem recursos, impulso e ânimo para se conjugarem, agirem conjuntamente e retomarem um rumo de regeneração, revivificação e redinamização da Cidade.

É certo que os executivos municipais liderados por Severiano Falcão, Demétrio Alves e Adão Barata procuraram, ao tempo, inverter o curso dos acontecimentos, com o Plano de Salvaguarda de Sacavém, com o PROCOM, com a resolução da chaga da Quinta do Mocho, com o Museu da Cerâmica e outras acções qualificadoras, mas remaram sózinhos contra a maré de retrocesso.

Hoje o problema está maior, mais vasto, mais denso. São precisas soluções audazes, inovadoras, determinadas e mobilizadoras. Sacavém, bem merecia (e precisava) ter um espaço próprio no Loures em Congresso, para que fosse discutida a Cidade e, sobretudo o seu futuro. Mas ainda que não o seja nesta ocasião, é indispensável que o seja num futuro próximo.

É isso mesmo que aqui proponho à actual Administração Municipal, que está a chegar a meio do seu mandato e, que estando sujeita a constrangimentos económico-financeiros muito substanciais que lhe permita uma intervenção robusta no imediato, deve aproveitar – penso eu – para na segunda metade do presente ciclo autárquico, lançar a reflexão e o estudo das oportunidades para a Cidade, o que é preciso fazer e o que é possível começar a fazer, designadamente, o rumo a seguir no próximo mandato. Sacavém não suporta muito mais depois disso.

E aos sacavenenses, caberá “dar alguma coisa para o peditório”. Desde logo, nas próximas eleições legislativas, optarem entre mais austeridade e mais depressão ou ajudarem o país e os governos a mudarem de registo. Depois, participando, dando opinião, informando-se, debatendo. Que esperar se nós próprios nada quisermos fazer por nós e pela nossa terra ?

publicado na edição 13, Maio de 2015, de Notícias de Loures

12.4.15

Elas vêm aí…






Contava-me recentemente um amigo, que na sua terra natal, a respectiva Presidente da Câmara, fez um magnífico trabalho de incremento da qualidade de vida local. Sem argumentos face ao desempenho da autarquia, com manifesta de qualidade política e intelectual, os adversários da gestão autárquica lançaram uma pérola acusativa: “A Presidente da Câmara fuma em público”.

 

Ridículo, claro, mas elucidativo de como às vezes vale tudo. E, bem sabemos, temos na vida política local – à falta de outras qualidades - verdadeiros especialistas da maldicência, da intriga, da ínsidia, da chicana, das suspeições.

 

O Concelho de Loures, conhece bem, um vasto naipe de atoardas, mexericos, mentiras e campanhas, visando autarcas, quer na dimensão política, quer mesmo na dimensão pessoal.

 

Passado cerca de ano e meio do actual mandato autárquico, o trabalho já realizado pelo executivo municipal conduzido por Bernardino Soares, não sendo perfeito, é globalmente inatacável.

 

Por isso mesmo, estou em crer que em breve elas vêm aí. Essas mesmo, as intrigas, as ínsidias, as mentiras, as suspeições, as chicanas.

 

Vêm pé ante pé, sussurantes, insidiosas, por vezes, até mesmo sensuais. Tentam pasto, insinuam-se, experimentam o “parece que…”, o “ouvi dizer…” e outras entradas manhosas, até que consigam alimentar-se da irreflexão ou da ignorância.

 

A resposta dos autarcas em funções, ao que aí vem, só pode fundar-se numa firme atitude ética:

 

1.       Ter presente que estão a servir a população do Concelho e não qualquer grupo de interesses;

2.       Prosseguir o seu trabalho e executar os compromissos que determinaram a sua eleição;

3.       Estreitar a proximidade aos eleitores, estar sempre disponível para abordar todos os assuntos, informando e esclarecendo, conversando, debatendo e interpretando com humildade democrática as opiniões, advertências, avisos, alertas e aspirações dos munícipes ;

4.       Rodear-se de equipas de trabalho nas quais possam confiar ética e profissionalmente, que não omitam, que não finjam, que não mintam, que não ocultem;

5.       Escutar (e não apenas ouvir) os trabalhadores municipais, que são quem está na primeira linha da execução das políticas municipais e do contacto com os municípes, as instituições, as empresas e todos aqueles que interagem com o Município;

 

Elas vêm aí, mas podem ser derrotadas.

publicado na edição nº 12 do Notícias de Loures
 
 

7.3.15

Agora, o rumo – parte II



Enquanto escrevia esta segunda parte de “Agora, o rumo”, chega-me a notícia que o executivo municipal lançou “Loures em Congresso” que pretende – segundo a autarquia – “ser um espaço de discussão, participado e sustentado, que permita, no futuro, a definição do plano estratégico para a gestão da Autarquia nos próximos 10 anos”.
 
Trata-se, evidentemente, de uma iniciativa que saudo e que vem corresponder aquilo que vinha propondo, pelo que fico satisfeito e, evito, para já, outras considerações e sugestões que me preparava para fazer. Salto, assim, para a visão que tenho, daquelas que devem ser as opções que se oferecem ao Município de Loures, neste momento e contextos, local, regional, nacional e internacional.

Comecemos pela ideia central e primordial que defendemos para a próxima década: TRANSIÇÃO PARA A SUSTENTATIBILIDADE

E de que sustentabilidade(s) se trata ?
 
·         Da sustentabilidade económica do Município, da preservação e incremento da sua capacidade de investimento;

·         Da sustentabilidade do tecido económico, pela sua evolução, consolidação, alargamento e inovação;

·         Da sustentabilidade ambiental e energética;

·         Da sustentabilidade do território, pelo equilíbrio nos usos e ocupação, a requalificação e valorização;

·         Da sustentabilidade demográfica;

·         Da sustentabilidade social, cultural e educativa;


A “ideia”, o “conceito”, a “causa maior” que se tem, será, pois, a de um Município apostado na qualificação global e no conhecimento científico, onde a educação e a cultura são pressupostos essenciais e, naqueles domínios, se constituam as âncoras do desenvolvimento local e do bem- estar das populações. Vislumbra-se, a oportunidade de:

·         Atrair actividades e empresas de valor acrescentado, qualificando o tecido económico;

·         Promover emprego, emprego qualificado e emprego altamente qualificado;

·         Promover, impulsionar e desenvolver o conhecimento científico, técnico e tecnológico, com base nas empresas e instituições instaladas e procurando acolher outras, bem com o interesse das Universidades e instituições de base científica;

·         Assegurar recursos suficientes para o exercício das atribuições e competências da Câmara Municipal de Loures;

·         Conferir à população e às jovens gerações uma base educativa, científica e cultural sustentada;

·         Defender e proporcionar um quadro territorial e ambiental sustentável;

·         Resistir e inverter as visões depreciativas do Planeamento Regional para Loures;

·         Adoptar uma política de contactos internacionais directos para partilhar, intercambiar e ancorar o rumo estratégico adoptado.


publicado no Notícias de Loures, nº 11, Março 2015

4.3.15

Agora, o rumo – parte I



Julgo ser pacífico que nos nossos dias os Municípios portugueses, precisam escolher um rumo estratégico para as suas políticas, tendo em vista estarem em condições de corresponder às necessidades dos seus munícipes.
 

Impulsionar economicamente a sua esfera territorial, com a tão necessária geração de emprego, investir na cultura, na educação, no ambiente ou em quaisquer outros domínios, requer meios, que escasseiam, e hoje, mais do que nunca, estando como estamos, numa camisa de forças austeritária, sob o alto patrocínio de um incontável governo subserviente.
 

Se uns conseguem definir o seu caminho com “naturalidade”, porque ou têm praias, ou têm floresta, ou têm quaisquer outros factores estruturais distintivos que “naturalmente” podem potenciar, muitos há que precisam reflectir, interpretar o contexto, definir com clareza objectivos de médio e longo prazo e estabelecer um rumo para lá chegar.
 

Queiram ou não, estão em concorrência com os demais, pelo desenvolvimento económico, pelo emprego, pelo investimento (não necessáriamente externo, mas também), por fundos europeus, pela capacidade de proporcionarem acrescidas condições de vida e bem-estar às suas populações. Os Municípios ineptos, incompetentes ou retardados a iniciar a marcha, ficam inevitavelmente a perder.
 

O Município de Loures, apesar da sua localização geográfica, junto à capital do país, teve de dedicar décadas a recuperar do atraso estrutural em que o fascismo o deixou. Teve de se adaptar rapidamente nas décadas de 80 e 90 a um crescimento impulsivo e irreflectido da Área Metropolitana de Lisboa de que foram pedra de toque a Ponte Vasco da Gama, a EXPO-98 e todo o conjunto de vias que tiveram um substancial impacto no território e ainda o PER, que condicionaram fortemente as direcções do investimento municipal.
 

Espantosamente, o novo século, acabou por determinar, uma nova fase, mas de paralisia e anomia, ausência de ideias e ambições colectivas (que as pessoais e particulares não falataram), de projecto ou de rumo. O período 2001-2013, por todas as suas circunstâncias, que deveria ter sido o período de lançamento das bases de um designío municipal, para a sustentabilidade e progresso da nossa comunidade, foi um tempo de desorientação e desgoverno.
 

É por isso que, agora, não se pode continuar a atrasar o indispensável.
 

É certo que é incontornável recuperar a credibilidade da Câmara Municipal, é verdade que é preciso pagar as dívidas que o anterior executivo deixou, é evidente que é urgente pôr a máquina municipal a funcionar para os munícipes e não para si própria, é claro que se está obrigado a ponderar muito cautelosamente todos os investimentos, obras e iniciativas, mas parece-nos que estabelecer rumo e objectivos será a melhor forma de assegurar que as iniciativas, obras e investimentos, mas também a reconfiguração da estrutura municipal e a credibilidade municipal, se conjuguem já num sentido certo e seguro. Isso há-de facilitar a missão e aligeirar a tarefa. Correr em todas as direcções, sob o pesado manto da incerteza, afigura-se-nos pior, mais trabalhosa e menos rendosa opção…
 

Voltaremos ao tema, na parte II.


publicado em Notícias de Loures, Fevereiro 2015

Os portugueses têm que se decidir



Os portugueses apresentam-se fartos e enfastiados com, o que se usa agora dizer, a “classe política”, expressão que me parece pouco inocente, porque se destina a acantonar todos os que desenvolvem actividade política, num mesmo “saco”.
 

A maioria é suficientemente inteligente e informada para saber que os políticos não são todos iguais, que os partidos não são todos iguais. Uma minoria, ou ignorante, ou ostensivamente desinformada ou ainda simplesmente seguidista, limita-se a papaguear o que ouve outros dizerem, sem a menor reflexão sobre o que está a reproduzir e o contexto que a envolve.
 

Governados há mais de 35 anos pelos denominados partidos do “arco do poder”, os portugueses manifestam crescente repulsa por quem os governa mas, eleição após eleição, repetem maioritáriamente o voto naqueles em quem já haviam votado antes e por quem vão sentindo crescente aversão, o que a partir de determinado momento, começa a ser muito difícil de entender.
 

Os portugueses queixam-se amargamente, uma e outra vez, de terem sido enganados, mas a cada vez que vão votar, parecem padecer por uma absurda atracção pelo abismo. Insistem nas soluções de sempre, afinal, aquelas de que se queixam amargamente. Como é que se pode perceber isto ?
 

Não pode ignorar-se a manipulação e condicionamento que o “sistema” faz sobre os cidadãos e sobre os eleitores. Todos os dias, a todas as horas se repete “que não alternativa”, de que sem os mesmos de sempre, será o caos, de que todos os outros são piores do que aqueles que têm exercido o poder.
 

Mas é caso para perguntar, como pode achar-se que são todos iguais, se só se conhecem alguns ? Como podem os portugueses acreditar que os outros são piores, se nunca os viram governar ? Enfim, como podem pessoas que se supõem inteligentes deixar-se submergir em mistificações tão grosseiras ?
 

Quem foi que nos trouxe das imensas esperanças do 25 de Abril a este estado comatoso em que o país se encontra ? Quem foram aqueles que governaram os imensos recursos que o país recebeu da União Europeia e o deixaram cheio de dívidas e problemas ?
 

Querem os portugueses ter “segurança” no que os espera, mesmo que isso, seja o pior que lhes pode acontecer ? Nesse caso, têm tido a “segurança” que pedem e escolhem. A vida tem sido “seguramente” pior a cada ano que passa, para um crescente número de jovens, idosos, desempregados, licenciados, doentes, estudantes, trabalhadores por conta de outrém e pequenos e médios empresários.
 

Os portugueses têm que se decidir, porque é impossível querer uma coisa e simultâneamente o seu contrário. Isso não existe. Como não faz sentido não querer exactamente o que escolhemos. Só às crianças de tenra idade e personalidade não consolidada são permitidas tais imaturidades.




publicado em Notícias de Loures, Janeiro 2015

Municipalização da Educação ?




Evidentemente, um disparate.

Uma municipalização da educação só pode passar pela cabeça de alguém por duas ordens de razões: cretinice ou ideologia.

Quanto à primeira, o assunto não merece grande debate. A cretinice poderá revestir vários formatos, alguns até chico-espertos, mas na essência, corresponde aquela convenção do QI não superior a 50.

Já a questão ideológica tem outro alcance. Também temos os imbecis, predispostos a aceitar certo tipo de “verdades” e engolir qualquer coisa desde que venha do “clube” do seu coração, mas esses são irrelevantes para esta questão, como o são para as demais. E temos os outros, defensores conscientes destas soluções, que habilmente mascaram com um argumentário estudado com cautela, os seus verdadeiros propósitos.

Esses propósitos, tragam a roupagem que trouxerem, resumem-se a uma ideia: reproduzir a situação, assegurando que os mais poderosos o sejam cada vez mais e que todos os outros se limitem a trabalhar muito e a sobreviver pouco, para garantir o status quo social e político.

Para tal desiderato, é indispensável que o ensino público de qualidade seja destruído, para justificar a privatização que, em si mesma, já é uma importante condição de rendimentos para uns quantos.

Privatizar o ensino, é um ariete ideológico, no sentido em que permite um “controlo social” pelos socialmente mais poderosos, sobre a quantidade e qualidade dos indivíduos que podem ter acesso a boa educação e que, ideologicamente adestrados, terão a missão futura de assegurar a reprodução do sistema.

E o que está na cogitação dos ideólogos da municipalização não é outra coisa, se não isso. Primeiro gera-se o caos no ensino e faz-se dele uma caricatura, depois critica-se a caricatura, o que sustentará a entrega à “competência” dos privados, a governação dessas incómodas coisas que são a educação, a investigação, o conhecimento, o saber, quando não controladas por aqueles que se querem assegurar que tudo fique na mesma, para sempre.

Há municípios, presidentes de câmara e vereadores que, por cretinice uns, e por razões ideológicas outros, aderem à ideia com o argumentário mais provinciano e ignóbil que se pode ouvir a um autarca. Se calhar, não se arrependerão nunca do dislate, porque serão gente para quem uma qualquer réstia de um “poderzinho”, muito os compraz. O “magno” poder de “comandar” os professores e lhes “ditar” a matéria a leccionar, é algo que os embebeda, porque, ignorantes cabotinos, se sentirão como se fossem sábios atenienses.

Infelizmente, temos também de estar atentos aqueles que, dizendo opor-se a este rumo desgraçado, actuam quotidiana e inconscientemente, a seu favor.

O centro das políticas de educação têm de ser sempre os alunos e as famílias. Todos os demais intervenientes no processo educativo, altamente respeitáveis, são subsidiários. Nenhuma autarquia deve aceitar substituir-se ao Estado, alinhar em politicas corporativas, observar acriticamente projectos educativos em que não é parte activa ou limitar-se a fornecer recursos ao sistema educativo que constitucional e legalmente cabe ao governo assegurar.
 
A municipalização da educação é um disparate. A esquizofrenia municipal a este respeito precisa rapidamente de tratamento.

publicado em Notícias de Loures, 2014

Ei-los que partem…




Ei-los que partem

novos e velhos

buscando a sorte

noutras paragens

noutras aragens

entre outros povos

ei-los que partem

velhos e novos (…)

É a primeira estrofe de um poema de Manuel Freire, que o próprio musicou e cantou, a propósito da malfadada emigração a que os portugueses estiveram sujeitos, por falta de condições de subsistência no país, durante décadas. Foi uma época, que levou uma imensa massa de portugueses, a procurarem noutros países toda a espécie de trabalhos, que lhes assegurassem a sobrevivência.

Em pleno século XXI, depois da revolução de Abril, depois da adesão à “europa rica”, choca e revolta que tenhamos voltado anos e anos para trás. Não há semana que não nos chegue ao conhecimento que mais um amigo, mais um familiar, mais alguém que nos é próximo, rumou ao estrangeiro, para começar ou recomeçar uma vida, para poder estudar ou trabalhar, para poder investigar ou ser profissionalmente reconhecido.

Esta é uma outra época, outra realidade, outras circunstâncias, mas ei-los que partem! E partem por razões semelhantes às de outros tempos: a falta de condições no país que é o seu, que amam e para o qual a maioria quer voltar, mas a respeito do qual cada vez têm menos esperança.

Uns, indignados, escreveram cartas públicas ao mais, retrógado e atávico Presidente da República pós-Abril de 74, outros lamentam ter de abandonar os seus e a sua comunidade, alguns protestam. Debalde. Os actuais governantes, meros mercenários dos poderes financeiros, missionários de uma demanda ideológica só comparável aos fascismos, não apenas fazem por ignorar, como tomam todas as medidas que podem para expulsar os melhores de nós, os mais qualificados, o futuro do país.

E vêm, recorrentemente, com cínicos e melífluos apelos a “pactos de regime”, cujo propósito não é outro que não o de tentar garantir apoio a inomináveis velhacarias. Para garantir a “sustentabilidade da segurança social” dizem eles… Garantir todas as sustentabilidades que o país precisa, é assegurar que as novas gerações tenham condições de estudar, de se formarem e de cá trabalharem, tudo o mais são fingimentos e mistificações para enganar os incautos.

O que este governo e este presidente da república estão a fazer aos nossos filhos enoja-me e com isso me envergonham, como pai, como contribuinte, como cidadão, como eleitor, como profissional, como português.

Aqui ficam dois apelos. O primeiro, aos portugueses, para que não deixem que isto continue a acontecer e expulsem, agora sim, estes meliantes políticos que promovem a fuga dos mais habilitados e jovens de nós. O segundo, às autarquias locais para que na medida dos seus minguados recursos e cada vez mais cerceada autonomia, apostem em projectos de educação, cultura, conhecimento científico, inovação, comércio justo e empresariado responsável, como forma de atenuar os desgraçados efeitos destas políticas governamentais.

publicado em Notícias de Loures, 2014

19.10.14

Alerta: apenas temos 2 dias de água



Passou completamente despercebido na comunicação social portuguesa, a circunstância civilizacional de, no passado dia 19 de Agosto, se ter virado, suicidáriamente, uma preocupante página na história da humanidade: o Homem passou a estar em défice ecológico com o Planeta.

É uma questão magna, cuja omissão e ocultação, não me parece nada inocente. Contudo, em Portugal, anda-se entretido com os resultados do futebol, os cínicos pedidos de desculpas de ministros incompetentes e os absurdos debates Costa/Seguro.

Ao mesmo tempo, perante a quase generalizada indiferença dos cidadãos, o governo português força a injustificada privatização da EGF, empresa responsável por parte importante da recolha e tratamento dos resíduos sólidos urbanos no nosso país. A questão é que nem toda a gente sabe ou está atenta, ao facto de a EGF ser uma sub-holding da muito mais apetecível Águas de Portugal. E é exactamente a Águas de Portugal que é o objectivo a atingir, ou seja, o que se quer mesmo é privatizar a água em Portugal, numa miserável agenda ideológica que pretende privatizar tudo, mas especialmente a água, por muitos considerada o “petróleo do séc. XXI”.

Como bem se compreende o epiteto de petróleo do séc. XXI não é uma denominação aleatória, antes se funda no facto de a água significar muito lucro e poder, muito poder. É isso que faz com que a água – composto químico único essencial à sobrevivência das espécies e, principalmente, da humana – seja hoje o principal foco de interesse daqueles que veem nela o principal instrumento de dominação futura.

Uma nota mais, reveladora, sobre quem são os principais interessados e agitadores da marcha forçada para a privatização da água em todo o mundo: o Banco Mundial, o FMI e a União Europeia, que uma vez mais, demonstra inequivocamente ao serviço de quem se põe, sistematicamente.

Em Portugal – embora muita gente inconscientemente pense que não – estamos na eminência de uma dramática escassez de água. Não é coisa de televisão que apenas acontece aos outros. Recorde-se que os 3 principais rios que cruzam o território nacional, Douro, Guadiana e Tejo, e que são cruciais para o abastecimento de água ao país, correm de Espanha e deixam-nos particularmente dependentes. Só temos água armazenada para 2 dias, repito, 2 dias.

Ainda alguém se lembra que aqui há uns anos, Espanha reduziu substancialmente os caudais e os rios em Portugal pareciam ribeiros à beira da extinção ? Percebe-se melhor assim, porque é tão perigosa a privatização da água ? Por causa do poder de abrir e fechar a torneira para quem se quiser, quando se quiser.

Paralelamente, à absoluta oposição à privatização da água, impõe-se uma campanha nacional de informação às populações sobre a necessidade de preservar rigorosamente este bem escasso e essencial, bem como tomar medidas operativas para acabar com o desperdício. Só em Loures, no final do reinado da gestão PS, as perdas na rede estimavam-se em 40%. É uma cifra escandalosa e temerária.
Um governo a sério, aproveitaria o próximo ciclo de fundos europeus para fazer o que é preciso e urgente no domínio da água, enquanto recurso indispensável e tão ameaçado como está. Privatizar, como suposto instrumento de gestão, não passa de um grave crime lesa-pátria.
 
publicado em Notícias de Loures, nº 6, Agosto 2014
 
 

Fénix mal nascidas



Nesta época do ano, nunca percebi porquê, costumamos ter, jornalisticamente, a denominada silly season, nalguns anos de mais calor, interrompida pela “época dos fogos”, onde á mistura com toda a tolice, assistimos a comandantes, a jornalistas, a políticos e a comentadores, a “toleirarem” sobre fogos, tácticas de combate, informativos números operacionais: “envolvendo 17 viaturas e 50 operacionais…”, negócios de helicópteros bombardeiros e outras parvoeiras recorrentes, para se concluir, que para lá do afã informativo e opinativo, ardeu tudo na mesma, ano após ano.

Este ano, pelas condições climatéricas, não tem havido fogos florestais substanciais e atearam-se umas fogueiras para inflamar a quadra. Uma das fogueiras, mais que justificada, teve como comburente ter-se chegado a esta época e a promessa do Governo (mais uma não cumprida) e não terem sido distribuídos os equipamentos de protecção individual, para que os “soldados da paz” cumpram em segurança a sua missão. Lamentável e revelador…

O outro fogacho noticioso que me chamou a atenção, foi o conflito nos Bombeiros Voluntários Flavienses entre uma parte (é quase sempre só uma parte) do corpo activo e a Direcção da Associação. Não pelo caso em concreto, cujos contornos desconheço e a comunicação social nunca aprofunda, mas porque simbolicamente representa aqui, o sem número de casos idênticos que têm lugar, todos os anos, ao longo do país.

E é isto que convida à reflexão e que induz à questão sobre se o quadro legislativo que enquadra a Protecção Civil e os Bombeiros, se a organização dos Bombeiros e as suas diversas hierarquias e reportes, se a sua distribuição no território, se os métodos de trabalho (não falo de tácticas operacionais, porque disso nada percebo) estão em consonância com as necessidades e se proporcionam a “paz” devida a estes “soldados” da comunidade, sejam eles voluntários ou não.

Como não sou, nem nunca fui Bombeiro, apenas observador do fenómeno, leva-me a considerar que toda a orgânica que envolve os Bombeiros e Corporações, Liga e Federações, Associações e Câmaras Municipais, Autoridade Nacional e Governo é uma embrulhada, uma teia densa, ineficaz e imprópria, propiciadora de conflitos, fomentadora de negociatas, indutora de comportamentos corporativos, desagregadora dos laços de solidariedade, que deviam presidir à acção dos Bombeiros, sempre.

O processo de nomeação e destituição dos Comandantes, bem como, o papel central que têm em funções é, quer parecer-me, uma esfera a precisar rapidamente de profunda revisão e num sentido que para mim é claro, terem de estar subordinados à Direcção da Corporação e não constituir unipessoalmente um “orgão”, de bicefalização do poder na Associação. As Direcções são eleitas democraticamente e têm a legitimidade corresponde, os Comandantes não.

Acredito que é também por isto, embora não só por isto, que existe um grau de conflitualidade elevado, uma tensão perniciosa permanente entre Corpo Activo e Direcção nas Associações de Bombeiros.
Voltarei ao tema, porque há muito mais para dizer. As Fénix mal nascidas precisam renascer, mas organizadas de outra forma…

publicado em Notícias de Loures, nº 5, Julho 2014

1.8.14

Há ambiente para o Ambiente ?




Há 12 anos, o Departamento de Ambiente da Câmara Municipal de Loures ficou dotado de um conjunto de instrumentos que podiam ter permitido ao Município dar um passo substancial de progresso e afirmação na área ambiental no seu território, mas também ser um exemplo nacional e internacional, muito para além das declarações de boas intenções.

Não apenas exemplo pelo exemplo, mas verdadeiramente um exemplo de transformação sustentável, invejável, desejável.

A seu tempo, os convocarei aqui porque: a) eram e são pertinentes e b) os estudos e projectos que lhe estão subjacentes, custaram muito dinheiro ao erário público, ao longo de vários mandatos, e não devem simplesmente apodrecer sem consequência num qualquer arquivo, caso não tenham sido já triturados, naquela mega-operação de reduzir a farrapos toneladas de papel, missão a que se prestou a equipa derrotada nas ultimas eleições autárquicas.

Hoje, serei mais prosaico e apenas chamo à colacção o projecto do Sistema de Gestão Ambiental, que na sua essência era – e pode ser – um projecto singelo, mas que transportava – e deve transportar – no bojo, uma verdadeira revolução na abordagem ambiental e de sustentabilidade em Loures.

Recordo, os pressupostos essenciais:

1.       Visava que as entidades municipais se constituíssem em padrão de conduta ambiental para empresas, instituições e cidadãos. Não faz sentido que a Câmara Municipal ou os Serviços Municipalizados promovam a fiscalização e apliquem coimas a terceiros ou invistam em educação ambiental, para que depois os serviços municipais tenham procedimentos e uma actuação que negue ou contrarie os bons princípios reclamados;

2.       Tinha por objectivo, uma progressiva redução de custos na actividade municipal, uma “austeridade” inteligente e propiciadora de novos investimentos. Desde a poupança de papel à redução do consumo de combustíveis fósseis, da concepção de equipamentos municipais sustentáveis à utilização racional da água. E muito, muito mais, que não se detalha por razões de espaço. Portanto, nada de gastar mais, mas antes, economizar e muito;

3.       A transversalidade às instâncias municipais. Câmara, Serviços Municipalizados, Empresas Municipais, Participações Accionistas do Município, Fornecedores;

4.       Uma aplicação progressiva, passo a passo, alterando processos e mentalidades, assegurando o envolvimento de todos os agentes municipais, em efeito mancha de óleo e a penetração no quotidiano das melhores práticas;

5.       A transposição para a comunidade, do exemplo, das conquistas, das vantagens, dos benefícios, obtidos no contexto municipal;

É um conceito cuja potencialidade justifica que a direcção política do Município equacione recuperar, por ventura, noutros termos e com outros protagonistas e, sobretudo, accionar.
Caso haja ambiente, para o Ambiente…

20.7.14

Breves notas sobre a problemática do sítio certo


Não ignoro que há quem considere que certas matérias, certas advertências, certas observações, certas propostas, que abordo publicamente, deveriam ser feitas num tal "sítio certo".
 
Embora não perceba bem, se tais opiniões se referem à minha condição de cidadão ou a alguma circunstância especial que sobre mim impenda, não me custa admitir que possam ter razão.
 
Não pode ser de outra forma. São recomendações ponderadas, emergentes de uma  experiência consolidada, de um agudo sentido do interesse comum. Estou certo que sim.
 
Então o que me traz a este "sítio incerto" e inconveniente com esta conversa ?
 
Apenas recordar que se têm esquecido de me disponibilizar o mapa para o dito "sítio certo".
 
Aguardo com expectativa que uma boa, ponderada e experiente alma, me faculte o endereço, ao certo, do "sítio certo". Nenhum dos caminhos que percorri até agora, por iniciativa própria, pelos vistos, me levou até lá.

Venha de lá essa rota!

6.7.14

Redes (in)Sociais


Analisar o efeito das chamadas "redes sociais" nas sociabilidades e na vida social, cultural, económica e política, é matéria que se presta a intermináveis estudos e a uma cascata de opiniões. Bem se percebe, que não pode deixar de ser...
 
Como tudo na vida, as "redes sociais" têm aspectos bons e agradáveis e outros péssimos e miseráveis. Uma faca, é um precioso auxiliar para a humanidade, mas um instrumento perigosíssimo nas mãos de alguns indivíduos e não apenas dos serial killer. Também é perigoso nas mãos de perturbados de outras patologias, das crianças, de doentes de Parkinson e cidadãos em idades avançadas. E nestes ultimos casos, ninguém quer fazer mal a ninguém e muito menos a si próprio, mas já tem acontecido...

Portanto, a questão não é a existência do "cutelo" mas quem o usa e como usa.

Estas novas formas de comunicação entre os indivíduos, trouxe consigo um conjunto de novos problemas a acrescer às singularidades de base da comunicação. Este modelo de comunicação - ao contrário da presencial - não transporta consigo os olhos, a face, as mãos, o tom de voz, as enfâses, os silêncios, que permitem uma percepção mais completa das mensagens.

Por isso, há quem não perceba uma ironia, há quem se ofenda porque alguém lhe escreveu em maiúsculas (dizem estes ofendidos que se está a gritar com eles !...), há quem não entenda uma subtileza, há quem leve à letra uma figura de estilo. Falta a comunicação "completa" (se a há), difícil de obter apenas pela linguagem convencional e formal da escrita.
 
Para o bem e o para o mal, todos têm centenas de "amigos", cuja maioria, provavelmente,  nunca viram, nem mais gordos, nem mais magros. Como pode interagir-se, que não seja num plano estritamente formal e educado, à semelhança de qualquer caso em que travamos conhecimento com uma outra pessoa ?
 
Como na vida livre de "redes sociais", os interesses e motivações são muito diversas. Encontra-se desde aqueles que apenas jogam compulsivamente, até aos que mostram obssessivamente os filhos ou os cãezinhos, passando pelos que publicam as suas músicas favoritas, os que mostram os seus talentos especiais, os que esparramam boçalidades, os que dão largas ao seu fervor clubístico, os que criticam políticas e políticos e um sem número de outras preferências.

Tudo isto coexiste nas "redes", e todos podem interpelar, comentar e interagir nos conteúdos públicos, a todo o tempo, cruzando-se infindavelmente - se se quiser - visões, perspectivas, opiniões, debates e até insultos.
 
Não é invulgar, um pequeno debate, por ventura, interessante, ser abruptamente desvirtuado e interrompido por intervenções despropositadas, desrespeitosas, disparatadas, quando chegam indivíduos que estão descontextualizados e fora do "espírito" da conversa. Acontece no convívio presencial e é vastamente potenciado, no âmbito das "redes sociais".
 
E é neste quadro, aqui desenhado em traços grossos e imprecisos, que o já de si complexo mundo da política, vai chegando ao complexíssimo mundo comunicacional das redes sociais. E aportam de todas as formas e feitios, a maioria, sem preparação e real percepção do "mundo novo" em que estão a entrar, apenas presumindo estar perante uma ferramenta que lhe permite "passar a sua mensagem" e "convencer" os paroquianos da bondade das suas actuações, quantas vezes sem uma mínima fundamentação que estribe as ideias dispendidas ou as acções prosseguidas.
 
Temos os bons exemplos. Os que separam criteriosamente a sua vida privada da pública, os que prestam informações sobre a sua acção e se dispõem a responder quando indagados, os que não se expõem para além dos limites razóaveis, os que dominam bem a "ferramenta" e controlam os seus mecanismos, para não serem sujeitos a insultos públicos e incómodos desnecessários. Os que não aspiram a ser "amigos" deste e do outro mundo.
 
Temos os maus exemplos. Os que aspiram a doutrinar ou induzir falsamente os frequentadores das redes, aqueles que misturam esferas pública e privada, aqueles que reagem intempestivamente a críticas ou avaliações, aqueles que aproveitam as "redes sociais" para fugir aos debates face-a-face e se refugiam no conforto da distância, para dizerem o que nunca diriam e os que abrem "perfis" falsos para emitirem opinião, muitas vezes verdadeiras agressões, mas que o fazem por detrás de um rosto e dados pessoais que não são os seus. Em regra, estes maus exemplos, são os que começam a querer medir a sua importância política pela quantidade de "amigos" e pela contagem de "likes" que obtêm nas suas "publicações". São fáceis de identificar porque não resistem a gabar-se dos seus (de)"feitos".
 
Estou em crer que ao usarem as "redes sociais" na internet, os cidadãos têm de acautelar-se e conduzir-se como em qualquer esfera social. Com ponderação, bom-senso, respeito pelos outros e credibilidade.
 
Para os agentes políticos essas responsabilidades têm uma progressão geométrica.
 
Podem ter a ilusão (não sabemos o que o futuro nos reserva, claro!) de que é possível, já hoje, fazer política sem contacto directo, franco, aberto, pessoal, com os eleitores. Parece ser ilusão a mais !
 
Podem ter a distracção de, num mesmo "perfil", mostrarem a sua "eternecedora família", para no momento seguinte apresentarem uma proposta política, alternando adiante, entre a crítica aos adversários, a resposta às avaliações da sua proposta e os comentários sobre o marido, a esposa, os filhos, os avós, os tios, as viagens de família, que os "amigos" fazem, correspondendo ao desafio que foi lançado com a publicação de imagens ou informações particulares. Creio ser muita distracção !
 
Podem ter a ambição de conquistarem ou preservarem o seu lugar, tornando-se num dos mais "gostados" da rede, mas não é certo o efeito provocado junto dos eleitores, quando estes constatam que o agente político em causa, passa tanto tempo na internet a tentar ser "popular", que certamente não estará a tratar dos assuntos pelos quais e para os quais foi eleito. É uma equívocada ambição !
 
Acresce que um cidadão tem graus de liberdade que um agente político não tem, exactamente pelo diferente papel em que um e outro estão investidos.
 
O que o agente político diz, mostra, prefere, as escolhas que faz, os "amigos" com quem interage publicamente, tudo conta.
Sem moralismos, nem puritanismos (não seria eu a pessoa certa para tais percursos), acentuo a minha convicção de que os cidadãos não devem expôr-se excessivamente nas "redes sociais". Se esses cidadãos, são agentes políticos, deviam proibir-se a si próprios de o fazer.

Recomendo outro caminho: Venham para a rua falar com as pessoas, perceber os problemas que todos enfrentamos e agir para os resolver.