15.5.11

"Eles" continuam a leste...

O "eles" do título é assumidamente dirigido à classe política. Bem sei que em Portugal temos esta mania desresponsabilizadora de atirar com um "eles" indefenido, incolor e inodoro para tudo e mais qualquer coisa, como forma de alijar responsabilidades e atribui-las a uma entidade não determinada, sem que tenhamos de assumir a acusação ou reclamação.

Não é aqui o caso, já que acusamos, assumindo a acusação, que os candidatos a deputado às próximas eleições de 5 de Junho de 2011 e os partidos políticos que representam, se mostram a leste (também de poderia indicar qualquer outro ponto cardeal...) dos verdadeiros problemas estruturais do país, logo, estão também muito longe de os poder (ou querer) resolver.

Enquanto alguns se entretêm a fingir que a situação a que o país chegou nada tem que ver com eles, outros, afirmando-se alternativa, caem no jogo medíocre das demagogias eleitorais, nas superficialidades políticas, nos "pintelhos" das disputas menores.

O país vai aceitar emprestado, uma barbaridade de dinheiro - para as suas necessidades mais urgentes (dizem-nos sem comprovarem), mas sobretudo, para as vorazes necessidades de lucro dos bancos e do capital financeiro em geral - que comprometerá o desenvolvimento nos próximos anos (ou décadas ?), amarrará as próximas gerações a sacrificios pelos quais não são responsáveis e que ninguém sabe como será pago ou sequer se será.

A questão fulcral, está mesmo a ver-se, tem que ver com a natureza do empréstimo e com o "contrato" (o famigerado memorando de compromisso da troika) que o regula. Tudo o indica, o malfadado empréstimo pode ser aparentado aos empréstimos que contraem os viciados no jogo: servem para pagar as dívidas, para comer umas pizzas para se manterem de pé e para novas apostas de sorte e azar, na esperança que um dia um tremendo jackpot os faça felizes.

Ou seja, este empréstimo não visa restabelecer a capacidade produtiva do país, não visa fazer evoluir os factores de produção, não visa modernizar e conferir eficácia aos sectores económicos de base nacional, enfim, não visa o desenvolvimento. É bem capaz de ser aquela última sardinha que deita o burro abaixo definitivamente...

De resto, se os partidos e os candidatos a deputados, se algum ou alguns deles, fossem capazes de olhar adiante e afastar dos olhos a espuma dos ruídos mediáticos, das demagogias baratas, das urgências panfletárias, talvez pudessem prestar atenção, reflectir e verter para os respectivos programas eleitorais, uma questão absolutamente estruturante para o século XXI em Portugal, a questão demográfica.

Quando os sucessivos estudos tornam evidente que "Mais de metade dos concelhos portugueses perdeu população ao longo da última década e em 82 municípios são mais as pessoas a sair do mercado de trabalho dos que as que entram". Quando se sublinha que "A perda da população (...) já se começa, a sentir. Mais de metade dos municípios (158) perderam pessoas nos últimos nove anos". Quando fica patente que "o envelhecimento da população afecta o sistema de protecção social porque há falta de pessoas no mercado de trabalho". Quando as projecções indicam a preocupante situação futura de que "Portugal arrisca-se a perder quatro milhões de habitantes até 2100", parece não restarem dúvidas que muitas das discussões, análises, propostas, promessas e slogans da campanha eleitoral em curso não passam de "pintelhos".

Desde logo a começar pelas questão introduzida nos debates públicos pelo autor da boçalidade púbica. Embora se perceba bem os interesses que defende e os objectivos que o senhor persegue, é completamente tola (se não senil), num quadro destes, a pretensão de reduzir catastróficamente a taxa social única.

Também numa evolução demográfica destas, pouco adianta que o Sr. Pinto de Sousa se arme em cavaleiro, arauto e protector do "estado social". Não haverá estado social que possa resistir a um quadro em que aumenta crescentemente a esperança de vida e se reduz fortemente a população activa. E não tem como resistir com as suas políticas de subordinação ao capital financeiro que tolhe e estrangula qualquer perspectiva de desenvolvimento económico. Se ao factor trabalho se extorquir cada vez mais, é elementar que não será por "graciosa" contribuição do factor capital que se terá um estado moderno, solidário e justo.

Esse é afinal, o desenho do tal acordo com a troika para o empréstimo de 78 mil milhões de euros. O FMI, a UE e o BCE, com o beneplácito, simpatia e entusiasmo de PS, PSD e CDS garroteam as oportunidades de recuperação de Portugal. Esse acordo, não apoia, não estimula, não define, não orienta qualquer política para que recuperemos autonomia. Pelo contrário, impõe restrições, cortes, limitações e depressão sem fim. São poucas as possibilidades de crescer económicamente, logo, são correspondentemente poucas as possibilidades de algum dia pagarmos a dívida.

Não estamos a ser resgatados, mas sim a ser tornados reféns.

Dispensa-se grande "iluminação" para se ver que não será possível inverter a tendência demográfica, quando as condições sociais e económicas são do calibre que estamos a (e vamos) viver. Na natureza, sempre as espécies adaptaram a sua reprodução às condições de sobrevivência. Se não há o que comer, são escassas as crias a nascer. O comportamento humano, neste particular, parece tender ao mesmo padrão. (Por comer entenda-se aqui não apenas o factor básico da alimentação, mas também os demais elementos essenciais da sobrevivência, como habitar, vestir, saúde, etc).

Uma das formas óbvias e por ventura mais rápidas de atacar o declínio demográfico (e as suas consequências todas), são consistentes, responsáveis e inteligentes políticas de imigração, mas em nenhum programa eleitoral vejo tal preocupação e uma visão estratégica. Uma vez mais, quem se refere ao tema, aborda-o meramente de um ponto de vista ideológico (quantas vezes hipocritamente), com superficialidade ou venenosamente. Neste último caso, por cálculo eleitoral explorando alguns veios racistas e xenóbos e manchas de ignorância que de novo vão alastrando.

Suspeito pois que "eles" continua a leste do que é estrutural, essencial, primordial.

1.5.11

VENDE-SE


De acordo com os últimos números a que tive acesso, os submarinos comprados por Portugal ascenderão ao valor de Mil Milhões de Euros. Dada a circunstância da imensa dívida pública, o aumento brutal do preço dos combustíveis, bem como o facto das Forças Armadas não disporem de meios económicos para suportarem a sua despesa corrente, logo, não haver dinheiro disponível para pôr os submarinos a navegar, creio que se impõe que, de imediato, os submarinos sejam postos à venda.

Se os vendermos ao preço de custo e enquanto ainda são novos, temos - como é evidente - um conjunto de vantagens:

1. Não desperdiçamos Mil Milhões de Euros;

2. Poupamos nos custos de manutenção e de guarnição;

3. Poupamos nos combustíveis e evitamos as importações que decorrem dos acréscimos de consumo provocado por estas bestas consumistas;

Por mim, faz-se uma OPV e apoiarei o Programa Eleitoral que tenha a coragem de os pôr à venda.

Não às privatizações das empresas nacionais lucrativas, Sim à venda dos submarinos!

26.3.11

Não tem de ser um fado, mas uma janela com horizonte

Como se fosse um fado, uma fatalidade, uma inevitabilidade, após a demissão do Governo, já o mundo dos opinadores, dos jornalistas e até dos chefes de estado e governo estrangeiros nos andam a "informar" que as únicas opções que temos para um futuro primeiro-ministro são Sócrates, ele mesmo, ou Passos Coelho.

Este último, já tenta dar-se ares de primeiro-ministro. O outro, procura mostrar-se determinado, em o vir a ser de novo. Ambos, dançam aquela já bafienta dança do agora vais tu, depois vou eu e assim sucessivamente.

Tudo se prepara, uma vez mais, para o grande (e já habitual) condicionamento. Para nos inclucar a todos a ideia de que não podemos mudar de rumo, nem de vida. Para nos fazer crer que temos "liberdade de escolha", mas ou escolhemos "rosa" ou escolhemos "laranja", ou escolhemos um rapazito ou um rapazote. Nada, nem ninguém mais, é hipótese.

Vão-nos dizendo subliminarmente que nem os "mercados", nem a Sra. Merkel, veriam isso com bons olhos, portanto, se estivermos com ideias peregrinas, o melhor é esquecermos e limitarmo-nos à gentinha em quem eles possam mandar.

Mas os portugueses já bem evidenciaram que querem outro caminho. Não apenas as manifestações de dia 12 e de dia 19 o mostraram acutilantemente, como não se viu derramada uma única lágrima, pela queda do malfadado governo Sócrates (excepto talvez pela sua rapaziada mais próxima ou aqueles cujo "lugar" na vida dependa do aparelho do PS) que tantos apoios recebeu de Passos Coelho para se manter firme em direcção ao abismo.

Mas esse outro caminho, esse outro horizonte, essas outras políticas que o país e os portugueses reclamam, não são óbvios, não estão patentes. Precisam desenhar-se e apresentar-se, para que emerja uma alternativa consistente e credível, com apoios vastos e diversificados.

Eu acho não apenas que essa alternativa é desejável, como acho que é possível. Acho mesmo mais, que é um imperativo que uma nova oportunidade política tenha lugar em Portugal.

Na minha opinião, uma tal alternativa, só pode ter berço na esquerda parlamentar e na esquerda sociológica em unidade conceptual e de acção. Do que se trata é de construir uma solução de salvação nacional democrática e de esquerda.

Onde o PCP, o BE, Os Verdes, os sectores de esquerda do PS, os muitos independentes e as gerações à rasca se possam entender, num programa mínimo de mudança, apontando novas direcções de empenho e impulso nacional, trazendo para a vida política activa e responsável novos protagonistas.

Uma solução, onde nenhum partido, nenhum militante, nenhum independente, tenha de prescindir da sua identidade, mas onde todos possam dar algo de si, para uma convergência indispensável e urgente. Onde os valores maiores que são o país e as pessoas tenham efectivamente primazia, em detrimento das diferenças político-ideológicas que possam reconhecer-se e manter-se.

Portugal precisa de uma mobilização nacional, de uma participação civíca sem precedentes, de uma opção governativa completamente diferente, de um programa político de efectiva modernização, de medidas firmes e honestas de recuperação dos sectores produtivos nacionais, de uma relação não submissa com a União Europeia, de se emancipar da canga dos "mercados", de se libertar da obssessão do defícit, de reconstruir o orgulho nacional e a confiança no futuro como nação livre e independente.

Estes propósitos só são possíveis à esquerda e as esquerdas têm, neste momento histórico, a obrigação política, ética e moral de oferecerem aos portugueses essa alternativa e essa oportunidade.

Não se entenderá, se uma vez mais, questões menores, tricas e intrigas, não permitam viabilizar o diálogo construtivo, o empenho político e a gestação de uma outra opção, bem diferente daquelas que através dos últimos 30 anos nos trouxeram até esta desgraçada situação em que nos encontramos.

Fazer falta de comparência agora, negar essa possibilidade, transformará a esquerda portuguesa não apenas em refractária, mas mesmo numa esquerda infiel.

Espero iniciativas e esforços sinceros, para que não se deixe o país resumido aos rosas e laranjas do nosso descontentamento e da nossa desgraça.

6.3.11

Não se paga a chantagistas, nem a terroristas

Um dos jornais semanários (se calhar outros também) noticia que "os juros da divida portuguesa, tanto a cinco como a dez anos, quase não desceram depois da reunião de 4ª feira entre Sócrates e Merkel, em Berlim".

Ou seja, quer o Governo preste ou não as mais inacreditáveis vassalagens, quer os portugueses façam ou não os maiores sacrificios, quer se acabem ou não com os mais civilizados direitos sociais, quer se façam ou não alterações legislativas que eliminem as conquistas de Abril, quer o Cavaco ganhe as eleições ou não, a chantagem não acaba mais.

Não lhes basta a pele. Querem o sangue e o tutano. Querem a dignidade e a essência. Na verdade, como o terrorismo, querem o caos, o pânico, o terror.

São assim, os endeusados e benfazejos "mercados". Terroristas da mais fina estirpe e da mais sofisticada elaboração.

E há, neste país, quem seja diligente e dedicado aliado dos "mercados", que se bate galharda e empenhadamente para que nos submetamos. Tudo fazem e dizem para que achemos normal, natural, inevitável, sermos espezinhados e vilipendiados. Não são apenas traidores de primeira grandeza. São gente sem escrupulos, vendilhões de baixo coturno, prostitutos de beira da estrada suburbana.

Qualquer estadista, melhor, qualquer político de mediana integridade, já teria assumido a atitude certa: não se negoceia com terroristas, não se aceitam chantagens.

Qualquer governo que respeitasse o seu país e o seu povo e, sobretudo, as gerações vindouras, não se deixava submeter a uma chantagem como a que está em curso.

Qualquer polícia no mundo sabe que nos casos de chantagem, pagar a primeira vez ao chantagista, significa ficar dependente, significa ter de aceder a exigências crescentes. A chantagem só acaba quando se anula o chantagista, quando é abatido ou preso.

O cobarde governo, o vassalo primeiro-ministro, os ministros "bananas", não conseguem reunir, entre todos, um mínimo de coragem, de dignidade, de ousadia, para enfrentarem a crise terrorista-chantagista como tem de ser enfrentada ?

Tende a coragem, senhores, de proclamar e executar: ou páram as exigências ou não se paga nada a ninguém!

Os salteadores internacionais, neste terrorista processo de tomada de reféns, têm actuado impunemente com a conivência dos ditos nossos "amigos" europeus e atlânticos. Já agrilhoaram a Grécia e a Irlanda e - como quaisquer malfeitores encartados - não vão parar até os fazerem parar.

E no crescendo de exigências chantagistas, o que se configura já, não é obter um resgate pontual, mas antes garantir uma dependência duradoura e absoluta de rendas altas e submissão perene. No fundo, do que se trata, é de uma futura relação de natureza feudal.

Alguém neste país vai ter de ter a coragem de não pagar resgates a chantagistas insaciáveis. Como qualquer cão raivoso, enquanto a mão lhes der de comer à boca, morderão cada vez mais.

2.1.11

Arrefecimento global


Permito-me (re)publicar um texto do Engº Demétrio Alves, que merece bem a nossa atenção e reflexão:




"A propaganda da teoria do aquecimento global hiberna quando o gelo chega, ou melhor, tirita de vergonha ao tornar-se público e notório que as temperaturas desceram para valores de há um século atrás em certas regiões europeias.

Bastará, contudo, que o sol desponte, para que os crentes no global warming voltem a atacar, alertando para o degelo do Ártico. E, se o calor escassear, não hesitam em socorrerem-se dos tornados e outros eventos meteorológicos mais radicais, que por vezes ocorrem, para agitarem o papão das alterações climáticas catastróficas.

Em grande parte da Europa, os aeroportos, as vias-férreas e as auto-estradas ficaram inoperacionais durante vários dias. Deveu-se isto a uma massa de ar gelado proveniente de latitudes árcticas, que chegou para congelar as pequenas ondas dos lagos dos parques londrinos e das fontes romanas. Ora isto é espantoso: – então, o ar congela as águas no continente europeu, mas, no próprio Árctico, de onde vem, não funciona?!

Com o presente artigo, pretende-se alertar os leitores para deriva ecoliberal, em que os grandes poderes políticos e económicos vêem incorrendo, apoiando-se nas discutíveis teorias do IPCC – Painel Intergovernamental para a Mudança Climática, que servem de partida para a os lucrativos negócios em torno da economia do carbono. De facto, muitas dezenas de cientistas em todo o mundo já demonstraram que a teoria antropogénica do aquecimento global não está confirmada cientificamente. É uma hipótese, nada mais.

Mas, então, e não obstante todas as dúvidas existentes, por que razão os centros de decisão política neoliberais foram tão apressados em adopta-la como doutrina oficial, apontando medidas correctivas para "salvar o mundo" numa panóplia de soluções mitigadoras? Qual é o interesse dos media ao reproduzirem acriticamente tudo o que é anunciado como uma Verdade inquestionável? E por que motivo o caudal informativo sobre a "catástrofe ambiental" convence os consumidores de notícias e, entre eles, pessoas bem informadas e inseridas em partidos de esquerda?

Os alarmes relativamente ao degelo no Árctico não são novos nem inéditos: muito antes dos satélites americanos terem "visto", em 2007, aquilo que disseram ser a evidencia do degelo no Ártico, os marinheiros, pescadores e navegadores contavam que, no Verão, o clima é muito instável naquelas latitudes, e ora há degelo, ora a água recongela, e é isso que torna a navegação muito perigosa naqueles mares. Os russos, naturalmente, conhecem bem aquelas águas.

Uma notícia publicada no The Washington Post, em 2 de Novembro de 1922, baseada num relatório governamental do United States Department of Commerce, com origem nas informações recolhidas pelo cônsul americano na Noruega, chamava a atenção para as alterações que estavam a verificar-se no Árctico: as águas aqueciam, os icebergs desapareciam, as focas ressentiam-se e os ursos polares estavam a desaparecer. Enfim, já então eram só desgraças!

Naquele tempo a repercussão internacional, pelo menos no mundo ocidental, foi enorme. Estava-se perante uma alteração drástica de toda a região do Árctico, dizia-se.

Em 1922, o dióxido de carbono (CO2) não estava na agenda de ninguém. As emissões antropogénicas deste gás que, note-se, não é um poluente, eram muitíssimo menores do que são no presente. Simplesmente havia, como hoje, outros mecanismos responsáveis pela evolução climática, mecanismos esses com muito mais importância do que o inocente CO2.

Naquela época, a Organização Mundial de Meteorologia anunciou que a temperatura média global cresceria a uma taxa próxima da que veio, de facto, a verificar-se muito mais tarde, no período de 1970 a 1990, e que deu oportunidade ao IPCC e seus seguidores para fazerem o grande alarido que conhecemos.

C02, O PSEUDO VILÃO UNIVERSAL

A situação do Árctico, com ou sem satélites meteorológicos, com ou sem IPCC, repete-se desde tempos imemoriais. A diferença é que, actualmente, há uma agenda ecoliberal, segundo a qual faça chuva ou faça sol, faça uma onda de calor ou uma vaga de frio, ou, até, sismos, erupções vulcânicas ou tsunamis, tudo é culpa do CO2.

Esclareçamos, com maior pormenor, a opinião crítica aqui registada e que se fundamenta nos trabalhos eruditos de muitos estudiosos destas matérias em todo o mundo.

As diversas actividades industriais, que se vêem intensificando desde a revolução industrial, numa primeira fase impulsionada pela utilização da máquina de vapor accionada a carvão, e, depois, pela electricidade (gerada a partir do potencial hídrico e do carvão) e pelo petróleo, colocam um severo problema de gestão de recursos naturais, e, entre eles, o do esgotamento a médio prazo do petróleo, cujo Pico produtivo estaremos a atingir na actualidade, e, mais tarde, de forma inevitável, do gás natural e do carvão. O próprio urânio, se consumido na produção de electricidade com as melhores tecnologias já hoje disponíveis, também se esgotará em menos de cem anos.

O ritmo de extracção dos recursos naturais e o crescendo das emissões poluentes resultantes da indústria e dos transportes, foram acelerados à medida que o modo de produção capitalista se impôs mundialmente. Este modo de produção, a par da sua força revolucionária inicial, é, por natureza, predatório e desregulado. E o seu poder adaptativo tem, inclusive, o condão de contaminar as alternativas políticas e económicas socialistas que se formaram em diversas regiões eurasiáticas, pressionando-as a "competir" com ele em vários tabuleiros e, assim, levando-as a não conseguirem originar um forma de produção industrial alternativa e sustentável. E, quando não vai lá através do binómio competição-sedução, recorre aos bloqueios ou à agressão bélica.

É possível que as diversas actividades humanas, que trazem sempre consigo diversos tipos de impactes – a desflorestação, a produção de metano pela agro-pecuária, a alteração dos solos, os resíduos produzidos pelos quase sete mil milhões de seres humanos, a emissão de CO2 industrial e nos transportes (e nas queimadas e incêndios) e de poluentes líquidos, sólidos e gasosos, etc., – contribuam, com uma percentagem significativa, para algumas das alterações climáticas que se fazem notar no planeta. No entanto, pode afirmar-se com segurança, que não é possível provar, ou imaginar sequer, um padrão de correlação causa-efeito solidamente estabelecido e indiscutível.

A caracterização e quantificação destas mudanças tem muitas incertezas e, por via disso, é difícil afirmar, com razoável segurança e seriedade, qual a data a partir da qual elas, as alterações climáticas, afectariam significativamente a geosfera, a biosfera, e a própria nooesfera. As várias estórias acerca das alterações climáticas são, para diversos cientistas (sistematicamente silenciados), muito duvidosas. É que há muitas causas para as mudanças climáticas periódicas que são mal conhecidas.

É razoável admitir, então, que, independentemente das incertezas, seria importante descarbonizar, desde já, a economia. Por uma questão de prudência.

O AUMENTO DAS TARIFAS DE ENERGIA ELÉCTRICA

Contudo, e porque isso significa gastar milhares de milhões de euros ou dólares, há que balancear com prudência os custos e os benefícios deste colossal investimento público e privado. Porque, ao gastarem-se estes recursos financeiros nesta frente, isso determina que eles rareiem em outros campos essenciais para a humanidade, como o combate às endemias, à fome e à iliteracia. Mais, é necessário perceber que a mobilização destes montantes financeiros significa, no actual modo de produção dominante, que os consumidores e utentes de bens e serviços essenciais acabam sempre a desembolsar muito mais. Em certos países, como Portugal, significaria perder competitividade económica, ou seja, aumentar o deficit e o desemprego. Por outro lado, as empresas que fornecem bens e serviços "livres de GEE", e que foram, entretanto, privatizadas, não prescindem dos seus lucros escandalosos. Veja-se, entre nós, o inqualificável caso do aumento das tarifas eléctricas, devido, entre outras causas, às eólicas e outras energias renováveis subsidiadas – cuja exploração aparece justificada pelas alterações climáticas –, e os pornográficos lucros das empresas produtoras, como a EDP, por exemplo.

Em suma: não é nada pacífico considerar que a causa principal do aquecimento do planeta – se esta tendência se mantiver – sejam as emissões antropogénicas de dióxido de carbono. No entanto, o poder político dominante, quer impor, de qualquer maneira, que essa seja a Única Verdade. Tudo o mais é inconveniente. Veja-se, por exemplo, a enorme trapalhada em que se envolveram alguns cientistas no chamado Climagate que ensombrou a COP15.

Há dúvidas essenciais sobre a ligação entre os GEE (Gases com efeito de estufa) e o aquecimento global. Designadamente aquelas que têm a ver com o referencial temporal que os cientistas utilizam para proceder àquela correlação - cerca de 150 anos de registos fiáveis -, e que muitos consideram insuficiente para estabelecer uma teoria sólida sobre as causas de aquecimento de um planeta que subsiste há milhares de anos. Esta dúvida foi, finalmente, assumida pela ONU, que, em Março de 2010, iniciou uma revisão das Conclusões do 4º Relatório do IPCC, precisamente na sequência das críticas aventadas antes e durante a COP15.

Em Outubro de 2008, uma das principais missões da dinamarquesa Connie Hedgaard, ministra para os assuntos da energia e clima no seu país, era a de preparar a Conferência Sobre Mudança Climática que se realizaria, sob a égide das Nações Unidas, em Dezembro de 2009, na cidade de Copenhaga.

Numa entrevista dada à revista Veja – edição 2081 – a ministra dava conta dos seus entusiasmos e preocupações e, perante uma questão colocada pelo jornalista (Qual é o principal indício do aquecimento global?), deu a seguinte resposta: – "Em 2004, quando fui nomeada ministra do Meio Ambiente, recebi a informação de que em trinta anos a fusão do gelo do Árctico iria permitir a navegação entre o Mar do Norte e o Oceano Pacífico. Decorreram apenas quatro anos e, no último mês, a passagem já ficou livre do gelo. Ou seja, a abertura ocorreu muito antes do previsto!"

Acontece, porém, que houve um navegador português, de nome David Melgueiro , que, ao serviço da Holanda, terá saído do Japão em Março de 1660, cruzou parte do Oceano Pacífico, passou no Estreito de Bering, atravessou todo o espaço oceânico árctico roçando, acima do arquipélago Svalbard, os 84º de latitude norte, descendo depois pelo espaço-canal entre a Islândia e a Irlanda, já no Atlântico, para chegar à foz do Douro em 1662.

E, que se saiba, O Pai Eterno – assim se chamava a embarcação usada por Melgueiro – não era um cruzador couraçado e também não é provável que tenha sido apoiado por quebra-gelos movido a energia nuclear. Pelo contrário, tratava-se de uma daquelas construções em madeira apenas um pouco mais evoluída do que as simples caravelas.

Se, em meados do séc. XVII, já não havia, naquelas tiritantes latitudes, gelo suficiente para travar uma frágil casca de noz, duas hipóteses se colocam: ou houve alguma nova glaciação entre os séculos XVII e o XX, ou, então, no tempo de Melgueiro, verificaram-se alterações climáticas suficientemente fortes para que se verificasse um significativo degelo, que, por certo, não se deveu, a ter acontecido, a gases com efeito de estufa de origem antropomórfica.

No que respeita à política de ambiente internacional no pós-Copenhaga (que foi um fiasco) é necessário reter que, sendo certo que a preservação da atmosfera terrestre deverá ser uma responsabilidade dos diversos países, é também claro que a influência que cada um desses países exerceu sobre a atmosfera ao longo da história – e a que ainda hoje exerce – é muito diferente, o que determina que aquela responsabilidade tenha de ser diferenciada.

Por outro lado, a definição da responsabilidade de cada país no esforço global de redução de emissões terá, pelas mesmas razões de justiça, que ter em conta os referenciais socioeconómicos das respectivas populações.

As emissões per capita da China são quatro vezes inferiores às dos EUA e cerca de metade da média das emissões da UE. A Índia tem cerca de um décimo das emissões médias da UE e vinte vezes menos do que as dos EUA. Neste momento, na Índia, há cerca de 500 milhões de pessoas sem acesso à electricidade.

São, assim, descabidas e injustas as tentativas de responsabilizar estes e outros países – os da ALBA, por exemplo – pelo fracasso de Copenhaga. Apenas a cegueira dos ecoliberais, empenhadíssimos nos chorudos negócios propiciados pelo mercado do carbono e pelo market enablement das renováveis, justifica a tentativa de impor restrições aos países e povos que se querem desenvolver mas que não podem dar-se ao luxo de consumir "carvão limpo" ou usar apenas energia eólica e solar para produzir electricidade (como se isso fosse viável).

"The planet has a fever ", afirmou Al Gore num discurso proferido no Congresso norte-americano, em Março de 2007, incluído na sua cruzada contra as alterações climáticas. Já se percebeu, contudo, que este fantástico paladino ambiental tem vários negócios "ambientalmente correctos", todos eles na linha do preconizado no 4º Relatório do IPCC, que veio estabelecer, apressadamente, um nexo entre a industrialização e os hábitos de consumo de uma sociedade movida a carbono e o aquecimento global.

A mitigação dos efeitos do CO2 é urgente diz o IPCC, e isso passaria pela imediata redução das emissões de GEE (Protocolo de Quioto), através da introdução de tecnologias mais limpas, na implementação de técnicas que propiciem eficiência energética e na progressiva reconversão das fontes de energia fóssil densamente poluentes por fontes renováveis tendencialmente limpas. É, não haja dúvida, uma música linda! Teríamos, assim, o soft way referido por Lovins na sua obra The energy controversy (1977), em que se recorreria de forma intensiva a novas formas de produção de energia (electricidade) através do vento, do sol e das marés.

Vivemos, na actualidade, mergulhados na perversa omnipresença de um debate centrado na questão dos GEE, em particular do CO2, preterindo outros assuntos muito mais relevantes como sejam, a protecção da biodiversidade, o acesso à água, a luta contra a desertificação, para além da já citada necessidade de combater a fome, as epidemias, as desigualdades e a iliteracia. Mas, estas questões, que não geram economias específicas e negócios lucrativos, não são, por isso, prioridades para a UE e EUA. Além disso, não serviriam para atacar os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).

A ditadura das alterações climáticas desencadeou, sem dúvida, um movimento de reconversão da produção energética (electricidade) a partir do voluntarismo da Europa. Em Portugal, o governo diz que são os campeões deste movimento.

Apesar da simpatia que merecem as fontes renováveis utilizadas para produzir electricidade, são muito grandes as dúvidas sobre a justeza e sustentabilidade desta opção, nomeadamente quando se pretende fazer acreditar que elas seriam suficientes, por si só, para sustentarem os consumos mundiais crescentes.

A herança de Quioto no plano do incentivo às energias renováveis tornou-se numa moda pujante e inquestionada pelos media. Tanto no plano da geração de electricidade, como ao nível da produção de biocombustíveis para alimentar as frotas rodoviárias e marítimas, as tecnologias de aproveitamento de fontes de energia renovável proliferam e desafiam a imaginação.

Porém, esta reconversão energética pós-moderna e ecoliberal não só agiganta brutalmente os custos financeiros dos investimentos iniciais, como, de facto, avoluma os impactos sociais e ambientais.

A CONVERSA BEATA DAS RENOVÁVEIS

O aproveitamento de fontes de energia renováveis implica investimentos iniciais vultuosos porque incluem custos "frescos" de investigação científica e experimentação, significam a construção de miríades de pequenas centrais electroprodutoras, a extensa reconversão agrícola ou silvícola para a produção de biocombustíveis, a extensão e reforço da rede de transporte e distribuição eléctrica bidireccional e, ainda, o investimento em centrais convencionais (térmicas ou hidroeléctricas) devido ao carácter intermitente e aleatório das fontes renováveis (sol, vento, ondas), custos que se reflectem na factura energética. Os consumidores, previamente mentalizados que devem contribuir para o esforço contra o aquecimento global, não têm outro remédio do que pagar mais. E ainda ficam agradecidos por puderem colaborar na "missão" de combate ao aquecimento global!

Não há dúvida que é um esquema genial, este, o que foi montado pelos ecoliberais! Muitos deles andaram, há trinta anos atrás, na campanha pela liberalização e privatização das empresas energéticas, dizendo que, com isso, a energia seria mais barata.

Cumpre dizer que estas "novas" fontes de energia (conhecidas há centenas de anos) são devoradoras de espaço, são intermitentes e não são inócuas, nem do ponto de vista ambiental, nem do ponto de vista social. Basta citar que a desflorestação da Amazónia, para propiciar a cultura da cana-de-açúcar e outras matérias-primas bioenergéticas, constitui uma emenda pior que o soneto. E que a utilização do milho para produzir álcool fez disparar os seus preços, determinando o aumento insustentável do custo da alimentação dos povos da América Central.

É interessante registar que toda esta questão baralhou os referenciais político-ideológicos: há uma direita neoliberal que diz que a responsabilidade desta novel orientação é de uma designada "esquerda ecotópica", formada pelos partidos socialistas (sociais-democratas, trabalhistas, democratas) coligada aos movimentos ecologistas, que seria caracterizada por uma ideologia pós-moderna, anti-científica, e com muitos interesses económicos misturados. Chega-se mesmo a defender que esta "esquerda" teria muito em comum com o pensamento mágico, elitista e utópico do nacional-socialismo, só não sendo, por enquanto, nacionalista e violenta.

Por outro lado, a esquerda científica (marxista) correlaciona esta política ambiental, centrada nas teses do IPCC, com as lideranças neoliberais que, assim, ensaiariam uma manobra de diversão para refrescar o sistema capitalista.

De facto, os dois pontos de vista podem ser concatenados se considerarmos que, hoje em dia, os partidos "socialistas" se tornaram nos pontas de lança de um neoliberalismo assanhado que está, de facto, a provocar um terrível arrefecimento global socioeconómico."

11.11.10

CARTA ABERTA AOS CIDADÃOS DE LOURES II


Na minha opinião, volta a justificar-se dar publicamente a palavra ao Maestro António Saiote , o que aqui faço:

Queridos concidadãos,

Chegaram ao meu conhecimento considerações públicas feitas pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Loures, que merecem breves comentários, dado que se sustentam em pressupostos falsos e assumem um carácter despropositado, lamentável e insidioso:

1. Nunca, em nenhum momento foi feita por mim ou quem me representa qualquer proposta à Câmara Municipal de Loures no valor de trinta mil euros;

2. É um facto que em minha representação foi apresentado um orçamento à Câmara Municipal de Loures, mas esse, decorreu de um acordo previamente estabelecido com o Sr. Vereador Ricardo Leão, em reunião, para a qual fui expressamente convidado.

3. Nesse encontro – a que compareci a pedido do Sr. Vereador – explicitei a minha ideia - como já havia feito ao Sr. Presidente da Câmara Municipal de Loures numa iniciativa do Rotary Clube de Loures em que nos encontrámos - e que consistia na apresentação em Loures da 9ª Sinfonia de Beethoven com uma Orquestra composta por 75 elementos, um Coro de 80 elementos e 4 cantores solistas;

4. Na referida reunião para a qual, sublinho, fui convidado, houve acordo total e completo à minha proposta e bom entendimento sobre o valor artístico e representatividade da iniciativa, a propósito da comemoração do Centenário da República, que se justificava inteiramente pelo papel que Loures desempenhou na Implantação da República. Pelo menos, assim foi expresso pelos intervenientes;

5. Vir agora acusar-me publicamente do que quer que seja - quando fui convidado pela Câmara Municipal para apresentar uma proposta e tendo obtido absoluto acordo na referida reunião – configura uma desonestidade intelectual inqualificável, sobre a qual nada mais direi, a não ser que os actos ficam para quem os pratica;

6. Para que conste, torno público que por me ter comprometido com o Sr. Vereador Ricardo Leão na aludida reunião, recusei a realização de um outro Concerto, o que acabou por resultar num prejuízo directo para mim;

7. Por fim, sublinhando a fragilidade moral e intelectual que já assinalei, estabelecer uma comparação entre um espectáculo de solidariedade – que ocorreu – e um Concerto de celebração dos 100 anos da República nos termos em que propus e foi aceite, é uma atitude de elevada gravidade política, cívica e ética, na medida em que nunca me foi solicitada ou proposta qualquer acção de natureza solidária;

8. A propósito deixo o desafio ao Sr. Presidente da Câmara para provar que alguma vez me foi solicitada colaboração num evento de solidariedade e que eu tenha recusado; As pessoas de Loures conhecem bem o meu empenho na Banda e o entusiasmo que dediquei à Cidade e aos Bombeiros, em prol do seu Quartel. Em Loures é bem conhecida a minha família e a sua história na terra de dedicação e solidariedade sem retorno e julgava estarmos acima de qualquer risco de difamação;

9. Como natural de Loures que sou e firmemente apaixonado pela minha terra, resta-me expressar aos meus conterrâneos a indignação que estas condutas pouco sérias e desleais me provocam, lamentando que a minha Câmara Municipal ao invés de valorizar, apoiar e projectar a expressão nacional e internacional do meu labor e o reconhecimento mundial já obtido, optar por me hostilizar e caluniar;

10. Já fui objecto de censura e manipulação antes do 25 de Abril. Lamento estar a sê-lo de igual modo nesta altura. Espero, e porque se tratou do Centenário da República que alguém saiba praticar a ética republicana não usando o poder para manipular a verdade e difamar os cidadãos.

11. Saibam pois, todos, que em paralelo com estas atitudes inqualificáveis, em casa, tenho vindo a receber incentivo, prémios e consideração um pouco por todo o mundo. E para que não tenha de o detalhar em causa própria, convido ao acompanhamento das notícias internacionais da cultura, se isso não for pedir de mais às excelentíssimas primas dos mestres de obras.

António Saiote
Maestro

Loures, Novembro de 2010

4.9.10

Mais um triste exemplo da Câmara de Loures

Publico, por ser merecedora de toda a divulgação, uma Carta Aberta do Maestro António Saiote aos seus Concidadãos. Loures, prossegue na ribalta pelas piores razões.

Não é apenas a cultura que está a ser "estrafegada". É também a ética, os princípios e o respeito por aqueles que são reconhecidamente embaixadores de Loures e da sua cultura.


"Queridos concidadãos,

Desde menino que ouvia relatos orgulhosos da república ter sido declarada a 4 de Outubro em Loures. Os meus avós, pais, amigos tinham esse feito como algo que nos distinguia dos de outras terras. Várias vezes me correram as lágrimas quando perfilado na banda de Loures tocava o Hino nacional. Aliás elas estão a correr agora!

Matarruanos e Republicanos

Há 2 anos falei com o presidente da Câmara alertando para a importância do evento e da dignidade que merecia. Informei também que a única vez que o Parlamento tinha reunido fora de São Bento tinha sido em Santo Antão do Tojal, facto dele desconhecido.

Lembrei que se tudo fosse preparado atempadamente e correctamente poderia obter financiamento da comissão nacional.

Esperava estar a tratar com pessoas que sabiam a diferença entre a obra-prima do mestre e a prima do mestre-de-obras!

Passaram 2 anos para obter uma resposta à minha proposta. Primeiro ela foi positiva e perante assessores tratámos de problemas logísticos e há 1 mês veio a cambalhota rasteira.

Por educação não vou definir a maneira como tudo foi mal tratado. Confundi o tipo de interlocutores ao serviço da nossa Câmara. Esqueci-me que há representantes de um novo partido em Loures e uma nova imagem por eles escolhida PCB - Partido do Caracol e da Bejeca.

Resta-me desejar que a nossa terra volte a ter pessoas ao seu nível e ao nível dos seus egrégios avós!"

António Saiote


21.8.10

Loures: Para a história de um declínio anunciado

O PS venceu em 2001, as eleições autárquicas no Município de Loures. Foi a escolha dos eleitores e nada há a dizer: as pessoas fizeram a sua escolha, ponto final.

O partido vencedor dizia, então, durante a campanha eleitoral, que “Loures vai sentir a mudança”. Honra lhe seja feita, o slogan tem sido cumprido. Loures mudou, mudou muito.

De exemplo na cultura e no desporto à vulgaridade absoluta, de rumo na educação ao folclore dos painéis publicitários, de orientação no ordenamento do território ao despautério urbanístico, dos apoios justos ao movimento associativo aos apoios clientelares, de uma empenhada política social ao abandono dos bairros e das políticas sociais e a lista podia continuar indefinidamente.

Em geral, dos primeiros lugares em todos os indicadores, para uma situação bem mais modesta.

Alguns dados de fontes insuspeitas - Associação Nacional de Município Portugueses e o Instituto Nacional de Estatística - em gráfico, para imediata percepção

Entre 2000 e 2007 queda é continuada. Tratando-se de dados de um período anterior à deflagração da corrente “crise” internacional, evidentemente que a "crise" aqui não tem qualquer reflexo nos dados apresentados.
Deste indicador formulado pelo INE, resulta a evolução que se vê da posição a nível nacional: em 2000 Loures estava na posição 17ª, em 2007 já estava na posição 25ª.

Por outro lado, a percentagem do Poder de Compra, que mede o “peso” de cada município no contexto do país, oferece o seguinte panorama:

Onde se confirma o “afundamento” do Município de Loures ao nível nacional:



Como é bem perceptível, Loures passou da 4ª posição no ranking dos Municípios Portugueses, para o 7º lugar.


Portanto, não haja dúvida que Loures tem sentido a mudança. É a escolha dos eleitores, sem dúvida. Mas terão os eleitores boa consciência do que nos está acontecer ?

Pois aqui ficam dados para reflexão, apenas reflexão, já que o povo é soberano e não tem que querer viver melhor, apenas tem de viver como escolher viver.


Mas há ainda um outro dado da máxima importância para se avaliar o “estado da arte” da governação PS em Loures: a evolução das receitas, ou seja, dos meios de que o PS dispôs para fazer “sentir a mudança”.

Embora não estejam disponíveis os dados referentes a 2007, a evolução entre 2000 e 2005 (últimos dados disponíveis) mostram bem como a Câmara de Loures vem tendo progressivamente mais dinheiro:


Não é fácil, por isso, perceber o discurso da “desgraçadinha” de que não há dinheiro para nada. Que por falta de dinheiro a Câmara esteja impedida de fazer tudo.


Mesmo sem falar do crescimento exponencial das receitas obtidas com as taxas do vendaval urbanístico que percorre o Concelho, a incontornável verdade é esta:


Loures, recebe cada vez mais dinheiro oriundo de impostos e orçamento de estado;
Loures, faz cada vez menos em prol dos seus munícipes;
Loures, está cada vez pior posicionado no contexto nacional.
E é isto o que temos.


A governação do PS é legítima ? Sem dúvida.


O PS na Câmara de Loures é desejável ? Que cada um conclua por si próprio e decida onde quer estar daqui a uns anos, se se continuar a descer a rampa a esta velocidade.

24.7.10

Relvados envenenados





A Câmara Municipal de Loures dedicou-se nos últimos 4 anos ao arrelvamento sintético de inúmeros campos de futebol. Á primeira vista esta medida é positiva.

Como antigo praticante, que o fez anos a fio nos chamados "campos de terra batida" e episódicamente em relvados (naturais, naturais) posso testemunhar que jogar na relva, até ensina a jogar.

Portanto, de um ponto de vista do desenvolvimento desportivo, para os atletas, treinadores, dirigentes e clubes, poder-se-ia dizer que foi uma boa medida.

Contudo, não me permite a consciência, deixar de questionar uma tal opção. E porquê ?!...

Porque:


1. Não é estratégica. É uma mera opção obreirista e eleitoralista. Foi tudo feito por igual em todos os lados para produzir inaugurações e se possível obter apoios eleitorais. Não foi pensado e não tem objectivos desportivos a atingir;


2. É errada a opção de fazer relvados sintéticos em todas as situações. Há casos que o justificariam. Há casos em que a relva natural era a solução mais indicada;


3. É um equívoco profundo mas que ao que me parece se generalizou (quem terá feito constar tal confusão ?!...) de que os relvados sintéticos não precisam de manutenção. Pelo contrário, os relvados sintécticos são mais comedidos de manutenção nos primeiros anos, depois são como os automóveis, nunca mais param os problemas e são elevados os custos;


4. Em breve, verificaremos o que dirão atletas, treinadores e dirigentes nos casos em que não se faça desde o início uma manutenção atenta, cuidadosa e dedicada. Os Clubes estão advertidos para o que têm de fazer no dia-a-dia ?!...;


5. É um erro de palmatória - quando os organismos internacionais do futebol não deram luz verde (e quem anda ligado ao futebol sabe porquê) à substituição dos relvados naturais por sintéticos - passar, no Concelho de Loures, tudo a sintético. Dificilmente algum campo de futebol de Loures será escolhido para uma prova internacional;


6. Mas o pior é que com esta manobra (nalguns casos muito aplaudida por dirigentes de vistas curtas), a Câmara de Loures acantonou os Clubes do Concelho nas "courelas" em que se encontram os seus parques desportivas e sem qualquer possibilidade de desenvolvimento;


7. Note-se, caso a caso, (Loures, Sacavenense, Camarate, Santa Iria, Tojal, etc. etc.) que estão completamente "sufocados". Ficaram todos mais alindados, o verde dá-lhes um outro aspecto e torna-os convidativos, mas na maior parte dos casos são meros rectangulos esverdinhados que não vão servir para mais nada, que não podem crescer, que não podem sequer adoptar dimensões maiores permitidas pelos regulamentos federativos;


8. Dir-se-á que são à medida das ambições dos dirigentes e das massas associativas. Não estou certo disso. Hoje, haverá quem esteja "contentinho" com a situação e não almeja mais nada. Amanhã não sabemos de que fibra, que horizontes, terão os dirigentes desportivos do Concelho de Loures. Alguém que veja um pouco mais longe vai ser confrontado com os sufocantes limites de um caquético rectângulo verde para a prática (exclusiva) do futebol. Alguém que tenha outra ambição para o seu Clube, para a sua terra, para as crianças e jovens da sua comunidade, irá perguntar-se como foi possível um tal disparate;


9. É-se obrigado a esquecer qualquer desenvolvimento desportivo. Estar-se-á confinado ao futebol e à mediocridade de instalações e de condições;


Direi pois que o presente está envenenado. Terá sido seguido este caminho por má fé ? Não creio. Francamente, acho que é por ignorância, incompetência, falta de ambição, oportunismo. E nada mais;


Desconfio, não sei de nada, mas desconfio, que com o argumento de "ainda há pouco fizemos o arrelvamento do vosso campo", durante os próximos anos não será concedido nenhum apoio ao desenvolvimento das infraestruturas desportivas dos Clubes (excepção feita evidentemente para algum caso de "amigos muitos especiais" na direcção de algum Clube);


Mas também uma estratégia desportiva (nem que seja só para o futebol) não verá certamente a luz do dia na manobra da Câmara de Loures. É que um desenvolvimento desportivo sustentado não produz resultados imediatos e não é passível de inaugurações. Portanto, não cabe nos objectivos próximos do comando político do Município;


O actual Presidente da Câmara prometeu-nos golfe nas escolas (não podiam ser só desportos populares, dizia ele). Investiu o que tinha e não tinha (a Câmara tem uma brutal divída acumulada aos seus fornecedores) para arrelvar sintéticamente muitos campos de futebol. E não passou disso. Como se sabe, os alunos das nossa escolas continuam a ouvir falar de golfe apenas pela televisão;


Tanto relvado sintético é ainda uma farsa, porque bem sabemos que a mioria dos Clubes se encontra à míngua de tudo e, em muitos casos, nem Corpos Sociais eleitos conseguem ter, pelo que não se vislumbra como é possível executar qualquer Plano de Desenvolvimento do Futebol em Loures, caso fosse esse o objectivo. E só podia ser esse, para um tão elevado investimento público;

É que se os Clubes fecharem (alguns - infelizmente - estão nesse rumo), nem as vacas vão poder pastar. A relva é sintética e está "envenenada".



26.5.10

Pub

Em assumida letargia há cerca de um ano, este blogue volta ao activo, embora apenas com publicidade, que passou a aceitar, desde que a dita respeite a lei, os estatutos e se reporte a uma causa respeitável.





2.6.09

Contra a censura, marchar, marchar

Agora, são os Xutos & Pontapés, os alvos de um inacreditável silenciamento. Pelos vistos a música continua a incomodar muito boa gente, o rock que fala sobre o quotidiano muito mais e a música rock que "pega os bois pelos cornos" é particularmente inconveniente.

Contra a censura, marchar, marchar. Com a devida vénia a MBQuart450, o meu singelo contributo contra o silenciamento dos Xutos e a "Sem eira, nem beira".

Digam-nos lá, senhores, se a verdade - musical que seja - vos atrapalha a vida...

1.5.09

Passar todos os limites da decência!

Ao aprovar um novo e mais alargado ataque urbanístico à zona da Foz do Trancão, substituindo o Parque Verde por construção, a gestão PS da Câmara de Loures, ultrapassa os limites da decência, do decoro e do desrespeito.

É uma indignidade inqualificável que não calarei e em todas as circunstâncias recordarei, com os nomes dos seus autores, onde e quando quer que seja.

Se o Ministro do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional e o Primeiro Ministro não pararem o atentado, não deixarão de se associar a um golpe indigno, insultuoso e terrorista.

Ficarão indelevelmente ligados ao sufoco da Cidade de Sacavém, à degradação ambiental e territorial da zona Tejo Trancão e à destruição do projecto regenerador da EXPO-98.

E tudo farei para saber se por aqui não andarão réplicas de outros famigerados casos ocorridos na margem sul do Tejo.

Ninguém me convence que a promoção destas coisas são para benefício público, para assegurar qualidade de vida às pessoas, para desenvolver as Cidades.
Não acredito!

2.4.09

Prolegómenos ante-eleitorais I



QUE NÃO FALTE O VOTO… NEM QUE SEJA BRANCO.

Que vamos ter várias eleições este ano, é já coisa mais ou menos do conhecimento geral, embora não estejamos livres – como é hábito – de no dia de cada uma das eleições, em sagazes reportagens de rua das nossas televisões, verificarmos que há uns quantos portugueses, acabados de chegar da diáspora… em Marte, a dizer: Há eleições ?!... Ohhhh, não sabia!

O refúgio argumentativo será o do costume: que os políticos são todos iguais, que quem anda nessas coisas da política quer é poleiro, que a política é uma inútil e artificial discussão permanente e inclusiva, entre outros aprofundamentos mais ou menos filosóficos.

Assim, acantonados em meia dúzia de lugares comuns e filosofias de chinelo de enfiar no dedo, muitos transferem para outros a responsabilidade de fazerem alguma coisa por si próprios e… pelos outros.

Sendo certo que a vida política portuguesa e europeia não são propriamente virtuosas, sendo certo que os políticos e os partidos políticos prevalecentes não são exactamente a confirmação dos ideais de esperança, liberdade, democracia e desenvolvimento que a revolução de Abril de 1974 prometia, sendo certo que a crise nacional a que se vieram somar as crises europeia e internacional, não são culpa de outros que não daqueles que têm conduzido a política, as políticas, a economia e as relações internacionais e que tudo isto tem rostos, tem protagonistas e activistas militantes.

Sendo tudo isto certo, o que menos funciona, o que menos se deve aplicar, o que menos se deve defender, será o absentismo, o abstencionismo, o alheamento, a alienação de responsabilidades.

Tal como não podemos esperar ir despejar os filhos à porta da escola à espera que esta faça deles Homens e Mulheres, também não será de esperar que resulte a deposição das nossas vontades, das nossas necessidades, dos nossos objectivos, das nossas aspirações, em mãos incertas para fazerem medrar os nossos propósitos e desenvolver o país.

Não resultou em lado nenhum. Não vai resultar cá.

Á volta à coisa não será dada com as repetidamente afirmadas “reformas” e o sacrossanto “reformismo”, que pouco mais querem dizer que manter tudo na mesma alterando a decoração.

Ao estado a que chegamos, são precisas mudanças sérias, claras, profundas, sob pena de prosseguirem os ciclos de crise, com muitos a pagarem e uns quantos a enriquecerem.

Não advogo uma revolução armada, mas é precisa uma revolução no voto e no modo de o encarar. Como se disse já há uns anos, acertadamente, o voto é uma arma.

Usemo-la então para promover a mudança, para uma nova esperança, novos objectivos, nova vida.

A abstenção tem sido desde sempre lida, pelos detentores do poder, como uma espécie de quem cala consente, logo, não comparecer, voltar costas, não é mais do que um cheque em branco aos protagonistas das crises, das falências, do desemprego, do endividamento, dos escândalos, das nossas dificuldades quotidianas.

Que fazer ?!... Votar, afastando os do costume, dando oportunidade aos outros ou, no mínimo, votar em branco em sinal de descontentamento com as condutas partidárias, os programas políticos ou com as personagens eleitorais.

Essa será, do meu ponto de vista, a atitude necessária e se calhar suficiente para abanar o sistema, o questionar e obrigar à reflexão e mudança.

Portanto, que não falte o voto… nem que seja branco!

4.3.09

Cabeça de lista com pouca cabeça

O cabeça de lista do PS ao Parlamento Europeu está com pouca cabeça... para contas.

Há gente, que por mais contas que faça com o seu passado, nunca tem contas feitas. Não sei se são dificuldades com o passado ou com as contas propriamente ditas...

Ó nosso primeiro, ofereça um magalhães ao homem para o ajudar nas contas e com a memória!

Se este ilustre "opinador" nacional, no Parlamento Europeu, estudar os assuntos como estudou este, vamos ter um excelente representante da manipulação gratuita ou da ignorância ilustrada.

Com a devida vénia, reproduzo abaixo um texto de Guilherme da Fonseca-Statter, a propósito.


"A propósito de mais um Aniversário da Revolução Cubana


É de longa data a ideia de que é de bom-tom, ou politicamente correcto, desancar naquilo que terá sido conseguido em Cuba depois da tomada do poder por parte dos revolucionários liderados por Fidel de Castro.


A julgar pelo teor de alguns dos escritos que tenho encontrado, designadamente na imprensa portuguesa e a acreditar nos relatos de alguns dos turistas que até lá vão passar umas férias, aquilo é mesmo uma miséria... Alguns dizem-me que a cidade de Havana estará numa decadência, com alguns dos edifícios mais nobres da cidade com aspecto profundamente degradado. Nesse particular respeito, os turistas portugueses não precisavam de ir tão longe. Bastava-lhes dar uma volta pelos bairros antigos de Lisboa ou do Porto... Mas enfim, cada um vê aquilo que quer ver. Segundo ouvi na rádio aqui há uns dias, alguém se queixava de que “não havia dinheiro” para recuperar grande parte do património histórico e cultural português. Julgo também ter ouvido que cerca de 40% desse património, classificado como sendo de interesse pela própria UNESCO, estaria em risco de degradação total e definitiva.


Voltando à questão do quinquagésimo aniversário da Revolução Cubana, pareceu a alguns comentadores ser oportuno fazer uma espécie de balanço. Seria portanto ocasião para se colocar em dois pratos de uma balança analítica, aquilo que de positivo e de negativo aconteceu (ou se deixou acontecer) em Cuba ao longo destes últimos cinquenta anos. Seria de esperar que, a esse respeito, se fizesse também uma, ainda que sucinta ou rudimentar, listagem dos condicionamentos externos e dos múltiplos factores intervenientes que tenham interferido e afectado o desenrolar “normal” dos acontecimentos naquele país.


Uma coisa é insofismável. Vive-se em Cuba em regime de ditadura de um só partido. Tal como é insofismável que se vive nos Estados Unidos em regime de ditadura de só dois partidos. Aquando da condenação à morte de uns dissidentes cubanos, tive ocasião de me manifestar contra. Até pela simples razão de que, como princípio ético geral, sou contra a pena de morte. E ponto final. No entanto já não sou contra penas de trabalhos forçados. Coisa que certamente escandalizará muitos espíritos bem pensantes. E no caso dos tais dissidentes tive ocasião de perguntar porque razão eles não eram antes condenados a estudar uns calhamaços quaisquer (já nem me lembro bem quais...), de fio a pavio, alternando esse estudo com a tarefa de partir pedra – por exemplo - para a reparação de estradas e caminhos de interesse público. Mas estou a desviar-me do assunto...


Uma vez reconhecida a situação de “ditadura do proletariado”, seria de interesse avançar para os resultados alcançados. Uma vez feita essa avaliação seria razoável imaginar o que poderia ter sido alcançado se os tivessem deixado em paz... Designadamente se não houvesse o boicote declarado pelos Estados Unidos, logo a seguir à nacionalização – sem indemnização – das empresas norte-americanas que até aí se tinham entretido a explorar recursos cubanos, com a corrupta conivência da ditadura de Fulgêncio Baptista. Seria também da mais elementar honestidade intelectual assinalar que enquanto a ditadura de Baptista era aceite e apoiada pela administração norte-americana, já a outra ditadura, a dos revolucionários liderados por Fidel de Castro, essa era inaceitável...


Imaginemos como poderia ter sido... Se não houvesse boicote dos Estados Unidos, teria havido (tem havido...) empresários norte-americanos interessados em ali investir, sem ser em casinos e bordéis de luxo. Foram investir na China comunista, porque razão não haviam de investir em Cuba, ali muito mais à mão e com praias maravilhosas. Mas, se não houvesse muitas empresas americanas interessadas, provavelmente haveria canadianas e europeias, se a interdição e boicote dos Estados Unidos não se estendesse, por via indirecta, a todos os países e empresas que negociassem com Cuba...


Pois é. Mesmo assim, sem qualquer tentativa de analisar minimamente as causas da actual situação de Cuba (a ilação subliminar acaba por ser clara – gato escondido com o rabo de fora – “a culpa é toda da ditadura”...), mesmo assim alguns comentadores sempre vão dizendo algumas coisas como “Economicamente, Cuba é hoje um dos países mais pobres da América Latina” (Vital Moreira, 6 de Janeiro de 2009 in “A Revolução Exangue”).


Mais adiante, diz-nos o mesmo comentador que “Nos principais índices de bem-estar material de uma sociedade moderna, Cuba ocupa sistematicamente os lugares inferiores em termos comparados. Os níveis de rendimento são em geral muito baixos”. Vamos por partes.


A América Latina é um conjunto de 24 países independentes, sendo 21 de língua espanhola, 2 de língua francesa e 1 de língua portuguesa. Penso que será razoável interpretar aquela afirmação de Vital Moreira “um dos países mais pobres da América Latina”, como querendo significar que estaria entre os últimos lugares de uma qualquer classificação relativamente à economia, strictu senso.


Fui ver e verifiquei que não é bem assim.


De acordo com as estimativas da CIA (o Banco Mundial e o FMI ignoram Cuba...) o PIB de Cuba (em paridade de poder de compra) era em 2007 de 125.500 milhões de dólares. Estava em 57º lugar numa tabela elaborada a partir dos dados daquela Agência Central de Informação dos Estados Unidos.


De acordo com as mesmas estimativas, Cuba aparece em 73º lugar mundial, mas em 6º lugar entre os países da América Latina. Com base em cálculos que levam em linha de conta as necessidades alimentares, para uma vida saudável, de um agregado familiar, despesas adicionais de habitação em conforto médio de acordo com normas socialmente aceites, incluindo acesso a água, electricidade, e serviços de sanidade pública, e considerando que a instituições como o Banco Mundial e o FMI, só porque a vida económica em Cuba não obedece lá aos cânones da sua ortodoxia neoliberal, simplesmente ignoram a existência daquele país, com base nesse tipo de cálculos, a CIA (imagine-se) atribui a Cuba um rendimento per capita anual, equivalente a 11.000 dólares. A mesma CIA atribui os seguintes valores a outros países da América Latina:


Chile 14.300
Argentina 13.100
Venezuela 12.800
México 12.400
Costa Rica 11.100
Cuba 11.000
Uruguai 10.800
Panamá 10.700
Brasil 9.500
Peru 7.600
Equador 7.200
Guatemala 5.100
Paraguai 4.000
Haiti 1.300


Afinal não era bem assim. Se calhar Vital Moreira queria dizer que ”um dos países menos pobres” ou então ”um dos países mais ricos da América Latina”.


A menos que, e digo isto sem qualquer ponta de sarcasmo, o senhor Vital Moreira tenha um critério pessoal de medir a riqueza económica dos países. Por exemplo, quantas lojas há de comércio de luxo, ou quantos automóveis de alta cilindrada de último modelo, ou ainda quantos jornais desportivos, sei lá...


Já no que diz respeito à sua afirmação de que “Nos principais índices de bem-estar material de uma sociedade moderna, Cuba ocupa sistematicamente os lugares inferiores em termos comparados”, também seria bom saber o que se entende “índices de bem estar material de uma sociedade moderna”. À falta de melhor tenho que me socorrer dos dados do PNUD-Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.


Com base em ideias do prémio "Nobel" da Economia Amartya Sen, o PNUD desenvolveu uma metodologia, considerada bastante mais completa do que a simples indicação do “PIB per capita”, para medir o grau de desenvolvimento humano (mais abrangente) dos diversos países... São elaborados com base em estatísticas, observações e inquéritos periódicos no terreno. Este índice combina os elementos fundamentais da saúde, do rendimento e da escolaridade. Refinaram também com índices do desenvolvimento do género (a questão da mulher na sociedade), assim como o índice de desigualdade na distribuição do rendimento e da riqueza.


Pois bem, de acordo com as últimas estatísticas do PNUD, Cuba está bastante bem e recomenda-se... Em alguns casos está mesmo muito melhor do que muitos países da dita cuja América Latina.


Em 2003, por exemplo, na listagem do HDI (Human Development Índice de Desenvolvimento Humano) do PNUD, em que no topo da tabela está a Islândia (com 0,968). Cuba estava com 0,817 e à sua frente – na América Latina - apenas estavam a Argentina, o Chile e o Uruguai (sempre com diferenças mínimas. Já em 2005, estava também a Costa Rica. Mesmo assim o índice de desenvolvimento humano de Cuba tinha subido para 0,838. No peso das crianças com menos de 5 anos de idade, por exemplo, um bom indicador da saúde "social!, estava em 24º lugar mundial.


Na questão da literacia de adultos estavam em primeiro lugar (mundial).


Moral da estória, os funcionários da CIA (imagine-se!...) que elaboram aquelas estimativas, assim como os especialistas das Nações Unidas, estão todos enfeudados ao regime cubano.


Só pode...
P.S. – Todos os dados numéricos aqui referidos estão disponíveis nos sítios das instituições indicadas, nomeadamente o CIA Factbook e o UNDP (ou PNUD). Também lá se pode chegar através de Wikipedia, assim como, no caso do PNUD, pelos Relatórios Anuais disponíveis em Ana Paula Faria Editora, Lisboa."

17.12.08

Também tenho um plano de combate à crise.

Tenho tido muito pouco tempo para escrever. E se esta crise - e todos os seus lamentáveis episódios - tem matéria para reflexão em voz alta e pena afiada...

Contudo, fui aproveitando para congeminar o meu plano anti-crise que hoje, aqui e agora, torno público.

Na linha da aflição demonstrada pelos governos mais poderosos e da preocupação, empenho e criatividade dos políticos mais ilustres de aquém e além mar, eis-me alcandroado a um nível de pensamento global só ao alcance de um Barroso, Sarkozy ou Berlusconi, políticos de elevadíssima craveira.

E o que é curioso, é que o meu plano é da mais modesta e límpida simplicidade e nem precisa de recorrer ao dialecto economez/financez para ser explicado. Sem mais delongas, vamos à coisa:

Os dois dados de base:

1. Os políticos em cada país são eleitos para representarem os seus eleitores, para dirigirem a economia, as finanças e todos os outros demais domínios da governação. Foram eleitos para liderar e não para serem liderados ou tutelados por interesses particulares ou pelo estrito grupo dos endinheirados e poderosos;

2. Mas se nas actuais circunstâncias não lideram nada, se estão na mão de quem não tem de mandar, se em vez de dirigirem são dirigidos, se isso provoca crises cíclicas e cada vez mais graves, se isso depaupera o planeta, se isso fomenta a guerra, se isso provoca o alastramento da fome e da pobreza;

A solução anti-crise só pode ser uma: Fazer o poder mudar de mãos. Promover outro exercício do poder. Exigir - quotidianamente - outras políticas. Ou seja, os senhores que estão e que estiveram, façam favor de sair!

Não vejo outra solução, para pôr termo às crises e ao aperto do cinto, ano após ano, legislatura após legislatura.

Serei ingénuo ? Não creio.

Ingénuos serão certamente aqueles que acreditam e repetem as balalelas da "regulação", das "reformas", dos "mercados", da "livre concorrência" e outros chavões martelados até à exaustão por órgãos de comunicação social, políticos ao serviço do status quo e economistas subjugados ou dependentes dos restos que lhes deixam os "afortunados" do sistema.

Até a Bela Adormecida um dia acordou!

O pior seria mesmo acordarmos sobressaltados por fenómenos - globais - descontrolados como o que grassa na Grécia. E toda a gente já percebeu que aquilo não é um problema de polícia, não já ?!... Tal como na França não foi.

O ingénuo serei eu ?!...

Portanto, proponho para combate sério à crise: vamos à mudança. mudemos os políticos. rejeitemos todos que transportam no seu bojo político os germens das crises!

Salvem os ricos!